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Da esquerda para a direita, de cima para baixo, presidentes de organizações estudantis: Luís Travassos, Lindbergh Farias, Aloysio Nunes (abaixo), José Frejat, Iago Montalvão, Fernando Haddad, José Serra, Orlando Silva, Pedro Abramovay, Letícia Chagas, Rozana Barroso e José Carlos de Macedo Soares

Movimentos estudantis: a força jovem que é temida desde o começo do Brasil

Por Isabella Gemignani, Leonardo Sarvas, Maria Luiza Jansen, Miguel Pereira e Murillo La Fonte, alunos do 1º JOA

N o início de junho de 2020, a região do Largo da Batata, em São Paulo, foi inundada por jovens manifestantes. Com críticas ao Governo Federal e motivados pelos protestos antirracistas nos Estados Unidos — ocorridos após o assassinato do afro-americano George Floyd por um policial branco —, os estudantes da capital paulista demandavam mais democracia. Simultaneamente, conservadores e apoiadores de Jair Bolsonaro, presidente da República, reagiram aos protestos. Na Avenida Paulista, eles demonstravam sua satisfação com o governo.

Mesmo em meio a uma pandemia, os protestos ganharam relevância e se destacaram na imprensa. A força dos movimentos estudantis, embora frequentemente subestimada, não é algo recente. Passando pela independência do Brasil (1822) até o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello (1992), os jovens sempre foram um setor político importante no país, apesar de serem, em conjunturas mais rígidas como a da ditadura civil-militar (1964–1985), alvos frequentes de perseguição e repressão.

Capa do jornal “O Estado de S. Paulo” de 30 de setembro de 1992 (Reprodução/Acervo d’O Estado de S. Paulo)

Desde o congresso organizado clandestinamente e às escuras pela União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1968 até a participação estudantil em 1984 na campanha “Diretas Já”, esse tipo de resistência foi essencial para o desenrolar — e o questionamento — de eventos históricos do nosso país.

Nazismo, petróleo e um “calabouço”: os movimentos estudantis no Brasil

A UNE foi criada em 1938, na ditadura do Estado Novo comandada por Getúlio Vargas. Naquele contexto, a organização se posicionou pelo apoio à redemocratização do Brasil e pressionou Getúlio para que repudiasse o nazi-fascismo e entrasse na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados (países que lutavam contra o Eixo, formado pela Alemanha nazista, a Itália e o Japão). Vargas cedeu em 1942, depois de navios brasileiros serem afundados pelos alemães. No mesmo ano, a UNE ocupou o clube carioca Sociedade Germânia, então frequentado por vários simpatizantes de Hitler.

Após o final da guerra, na República Populista (1946–1964), a luta mais lembrada da união foi a favor do “Petróleo é Nosso” e da nacionalização desse recurso. Posteriormente, a campanha apoiada pela UNE levou à criação da estatal Petrobras, em 1953.

A organização estudantil estava se fortalecendo e tornando-se expressiva, culminando em sua rápida repressão por parte do Governo, quando a ditadura de 1964 começou. No mesmo dia em que os militares entravam no poder, a sede da UNE sofreu um grande incêndio. Ainda hoje, não se sabe ao certo se o incêndio foi causado por policiais ou civis. A certeza é que o medo dos “comunistas” era tão grande que a sede histórica da UNE, conquistada nos anos 40, na Praia do Flamengo, 132, no Rio de Janeiro, foi incendiada.

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Políticos no Congresso Nacional, no dia seguinte ao golpe militar (Imagem: Reprodução/FGV CPDOC/Arquivo Tancredo Neves)

Em 9 de novembro de 1964, também foi sancionada a Lei Suplicy (Lei 4.464/64), que colocaria os movimentos estudantis na clandestinidade. Por consequência, qualquer possível local de encontro dos estudantes era duramente rastreado e fortemente vigiado. Somente em 1985 o então presidente José Sarney voltaria a reconhecer legalmente a união estudantil (Lei 7.395/1985) como “entidade representativa do conjunto dos estudantes das Instituições de Ensino Superior existentes no país”. A lei promulgada por Sarney é vigente até os dias de hoje.

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Página 6 do jornal “O Globo” de 10 de novembro de 1964 (Imagem: Reprodução/Acervo d’O Globo)

Porém, mesmo com a repressão ditatorial, os movimentos estudantis continuaram resistindo. Marcadamente no Rio, a UME (União Metropolitana dos Estudantes) e os estudantes frequentadores do Restaurante Central dos Estudantes (mais conhecido como “Calabouço”) organizavam protestos regulares contra o governo militar.

O público do restaurante era composto, principalmente, por jovens de baixa renda, que dependiam das refeições de baixo custo (dois cruzeiros) para continuar estudando. Muitos deles vinham do Nordeste e das camadas populares do Rio de Janeiro.

1967: Restaurante Central dos Estudantes, ou “Calabouço” (Foto: Reprodução/Agência O Globo)

Em 1967, o Governo do Estado da Guanabara decide fechar e demolir o restaurante. Contudo, mediante a disseminação no meio universitário das dificuldades enfrentadas pelos estudantes no Rio, rapidamente iniciam-se protestos distribuídos por todo o Brasil a favor da reconstrução do Calabouço. A pressão foi tanta que, em 1968, um novo prédio foi entregue, mesmo que de forma incompleta, o que gerou novas manifestações por parte dos estudantes da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ).

Em uma passeata do tumultuado ano de 1968, a Polícia Militar invade o restaurante e mata Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista paraense. Ele tinha somente 18 anos na ocasião. O fato gerou comoção geral, servindo de estopim para a primeira grande manifestação contra o governo militar, a Passeata dos Cem Mil, na capital carioca. Mesmo assim, em São Paulo, o assassinato também conduziu estudantes aos protestos, principalmente na USP (Universidade de São Paulo) e na PUC (Pontifícia Universidade Católica).

“Em geral, não ficam com muito medo”

De 2003 a 2016, com as vitórias eleitorais dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, movimentos estudantis tenderam a participar da base aliada do governo. Mesmo que a ditadura militar não tivesse acabado havia muito tempo, os movimentos estudantis lentamente deixaram a oposição e se depararam com uma realidade que lhes era mais agradável.

Dessa forma, com o impeachment de 2016, quando houve uma insurgência dos movimentos estudantis, o Brasil pôde observar uma população desacostumada com essas lutas. Pelos setores mais conservadores, coletivos estudantis passaram a ser vistos como “reclamões” e cheios de “mimimi”. Pouco tempo antes, os estudantes também tinham se destacado nas Jornadas de Junho de 2013, protestando inicialmente contra o aumento nas passagens de transporte público. Naquele mês, as pautas das manifestações também se encompridaram, abordando, inclusive, a violência policial.

“Itamaraty é invadido por manifestantes”, publicado em 26 de junho de 2013 (Vídeo: SBT Jornalismo)

Apesar das relações entre governo e os movimentos estudantis terem azedado já no governo Michel Temer, foi com a eleição de Jair Bolsonaro que diversos movimentos começaram a perceber um horizonte de ameaças, mesmo que indiretas. Conversando com Letícia Chagas, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto (Faculdade de Direito da USP), e Rozana Barroso, presidente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), o que ficou perceptível é que o medo em relação a ameaças e retaliações tem crescido.

“Nós temos muitos históricos de protestos com respostas muito violentas”, articula Barroso. Frente a um governo que “comemora a ditadura militar e que fala que o estudante precisava de tortura”, a presidente da UBES diz que o movimento teme a violência policial.

Além disso, esse temor se estende também para o possível afastamento da população das suas ideias. Com a “onda de criminalização do que é o movimento estudantil”, Rozana defende que o papel da UBES é contrariar esses estereótipos, dizendo que “nós somos os verdadeiros patriotas”.

Rozana Barroso (UBES): “Nós somos os verdadeiros patriotas”

Chagas completa, com a perspectiva do XI de Agosto: “A gente costuma temer, sim, especialmente neste ano em que grande parte do XI é formado por pessoas negras e periféricas. Além de ser parte de um movimento estudantil, a gente é reflexo da população que é mais marginalizada e mais vítima da ação policial”.

O XI (“Onze”), como é chamado pelos íntimos, é o mais antigo centro acadêmico do Brasil. Ele foi fundado em 1903 e teve, entre seus presidentes, Fernando Haddad, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, e Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro das Relações Exteriores de Michel Temer. Chagas, eleita em 2020 com o “Movimento Travessia”, é a primeira mulher negra que chegou ao cargo de presidente da entidade estudantil.

Letícia Chagas (XI de Agosto): “A gente costuma temer, sim”

No caso da UNE, o presidente Iago Montalvão conta sobre uma tentativa do presidente da República a favor do desmonte dos movimentos estudantis: “O próprio presidente Bolsonaro, quando propôs aquela questão da carteira digital, que é efetivamente para atacar e prejudicar as entidades estudantis, falava: ‘Nós estamos aqui tirando financiamento das entidades que querem levar o socialismo para as universidades’”.

Iago Montalvão (UNE): “Efetivamente para atacar e prejudicar”

Em 6 de setembro de 2020, Bolsonaro assinou uma medida provisória (MP) para criar carteiras estudantis digitais. Sua emissão seria gratuita, concorrendo com a UNE e a UBES, que cobram para confeccioná-las. Na ocasião, o presidente disse que “essa lei de hoje, apesar de ser uma bomba, é muito bem-vinda, vem do coração. E vai evitar que certas pessoas, em nossas universidades, promovam o socialismo. Socialismo esse que não deu certo em lugar nenhum do mundo, e devemos nos afastar deles”.

Ministério da Educação prometia carteirinha de estudante digital e gratuita. A MP que as institucionalizava, no entanto, caducou. (Imagem: Divulgação/MEC)

A MP, no entanto, não foi analisada pelo Congresso dentro do prazo necessário. Com isso, a medida caducou, e as carteirinhas digitais deixaram de ser emitidas. O presidente afirmou que, por causa disso, a UNE estava “vibrando”. Ele também se defendeu: “Nossa intenção não é perseguir a UNE, muito pelo contrário, é facilitar a vida do estudante e evitar que ele gaste 35 reais”. A quantia corresponde à atual taxa de emissão do Documento Nacional de Estudante, a carteirinha feita pelas UNE, UBES e ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos).

Em reação a esses conflitos, Iago Montalvão diz que “sempre tem esses grupos extremistas que travam essa guerra ideológica e que o Bolsonaro alimenta, que tentam se colocar contra o movimento estudantil”. Mesmo assim, o presidente da UNE afirmou que os jovens envolvidos na luta estudantil “em geral, não ficam com muito medo”.

O jovem: animal político

Letícia Chagas (XI de Agosto), Rozana Barroso (UBES) e Iago Montalvão (UNE), da esquerda para a direita. A foto de Letícia Chagas é anterior à pandemia de Covid-19. (Imagens: Reprodução/Redes Sociais)

“É um setor da sociedade, a juventude, que tem mais disposição de se mobilizar e tem mais característica de se rebelar contra as questões desiguais, porque está na sua característica ter esse ímpeto maior de mobilização, de indignação”, contempla Montalvão sobre a importância da articulação dos estudantes no cenário contemporâneo. “O jovem universitário está ali inserido no debate político mais amplo”, completa.

Iago Montalvão (UNE): “É um setor da sociedade, a juventude”

Mesmo diante de uma conjuntura permeada por tensões — especialmente políticas e sociais —, os movimentos estudantis abrem espaço para a força juvenil se expressar e atuar. Sobretudo, essas organizações são um meio para a mobilização de estudantes, não como jovens, mas como cidadãos políticos. Com “característica de vanguarda, de mobilização, de ser uma energia pulsante da sociedade”, como aponta Montalvão, o jovem se interessa e se engaja pelas causas sociais nessas entidades.

Nesse sentido, o Centro Acadêmico XI de Agosto (Faculdade de Direito da USP) é um veículo para “pensar coisas que são importantes para nós”, segundo sua presidente. “O Onze é um exemplo da força e da autonomia estudantil. Ele traz, para o Brasil como um todo, esse exemplo de que dá para fazer um movimento estudantil que esteja pensando as questões do seu tempo”, opina Chagas.

“É um momento difícil, mas temos a esperança de que seremos nós, mais uma vez, como mostra a nossa história: os estudantes que vão transformar e esperançar uma realidade diferente para o povo brasileiro”, diz Rozana, da UBES. “É uma luta coletiva, que é uma luta muito bonita e que é uma das coisas mais bonitas que eu já vivi.”

Espaço para a produção dos alunos do 1º ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

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